enkeltauglich leben
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Criando juntos o bem-comum no paraíso

Casa do Bento – Como uma casa de férias em Portugal se transformou num bem-comum.von Jacques Paysan, erschienen in Ausgabe #48/2018
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© Jacques Paysan

Este artigo é dedicado à minha amada esposa Silke Helfrich, que faleceu no dia 10 de Novembro de 2021, após um trágico acidente nas montanhas do Liechtenstein. A sua visão sobre os Commons, permitiu-me ver o mundo de uma nova e diferente perspectiva.


Quando penso em Portugal, há muito que sou invadido por um anseio melancólico que não consigo explicar. Os portugueses chamam a este sentimento »Saudade«. É contagioso. No Verão de 1979, chegámos pela primeira vez a este agradável país, a bordo de um velho e raquítico Renault 4L verde-alface, que eu tinha reparado para viajar com peças sobressalentes que comprei na sucata. O veículo foi »venerado« pelos locais como se de um OVNI se tratasse. Nessa altura, não era de modo algum natural que jovens alemães fizessem uma viagem aparentemente interminável para finalmente chegarem ao Oceano Atlântico no norte do país, embriagados pelo cheiro dos eucaliptos e embalados pelos paralelepípedos graniticos das velhas estradas. O dia da nossa chegada foi bastante intimidante. Havia bairros de pescadores (Afurada) que faziam lembrar as favelas da América Latina. As crianças de rua rodeavam o nosso carro e tentavam entrar por todas as portas do velho Renault. À beira-mar, todos os parques de campismo estavam cheios e era-nos muito difícil comunicar com as pessoas. Finalmente encontrámos lugar, num pedaço de terra poeirenta no Parque de Campismo da Madalena, a sul da cidade do Porto, mesmo ao pé da praia.

Verificamos que a maioria dos campistas deste parque não eram turistas, mas famílias da classe média que habitavam no Porto. Os pais levantavam-se todos os dias de manhã para ir trabalhar para a cidade de onde regressavam ao fim do dia, enquanto as mães e a criançada ficava ali a desfrutar do Verão. Muitos deles eram »co-proprietários« deste lugar. Na realidade não eram co-proprietários, tinham-se juntado numa espécie de cooperativa que alugou o parque ao seu proprietário – uma associação de jornalistas – que depois da revolução deixou de estar interessada na gestão desse lugar. Juntos pagavam a renda do local, a água, a electricidade assim como o salário do velho senhor Alfredo, responsável de toda a logística do local. Lembro-me de muitas vezes estarmos todos juntos com ele a beber »Bagaço« no bar. Fizemos amizade com o Paulo – o Zé Paulo como era conhecido – que pertencia a uma dessas famílias que há muito passava ali o verão. Convidou-nos para jantar e apresentou-nos a todos os seus amigos, que passaram de imediato a ser nossos também. À noite depois de jantar, acendiamos uma fogueira na praia, tocávamos guitarra, cantávamos e discutimos os mais diversos assuntos, a revolução portuguesa , a construção das estradas alemãs, sei lá ... tudo ... até altas horas da madrugada. Chegada a hora da partida, fortes emoções se apoderaram de nós: abraços sentidos e lágrimas. Uma certeza porém permanecia em nós: voltaríamos porque aquele lugar, era agora também para nós, a nossa moradia de verão. E voltámos... não com a frequência que desejávamos, porque as nossas obrigações aumentaram e o dinheiro era sempre escasso. Mas o sentimento permaneceu. Por uma ou outra vez dei comigo a sonhar com uma casinha em Portugal, sem nunca pensar em realizar realmente esse sonho. Passaram-se mais de trinta anos antes de voltar a Portugal e rever o Paulo. Durante uma viagem de trabalho, reencontramo-nos no átrio do hotel. Abraçamo-nos atordoados... comemos peixe grelhado com vinho verde, no velho porto de pesca de Matosinhos. Contamos um ao outro as nossas vidas, mostrámos fotografias dos nossos filhos agora adultos e percebemos que embora os nossos corpos tivessem envelhecido, a »luz« dos nossos olhos tinha permanecido intacta. O meu amor por Portugal ganhou um novo alento. Mas nesse momento, uma pequena casa neste simpático país parecia-me agora um snobismo político e ecológico indiscutível. Seria válida a razão de possuir uma casa num lugar tão distante só para me entregar à minha egoista nostalgia durante escassos dias, por um ano ou dois? Docilmente, o meu sonho esbarrou na parede fria e sem adornos, da razão.

No entanto, comecei a viajar mais frequentemente para Portugal, em trabalho e por vezes em privado. Ficava alojado em hotéis, que me aborreciam ou em apartamentos que reservava pela Internet, na esfera da chamada economia partilhada. Também aí não consegui ligar-me emocionalmente. Os apartamentos »partilhados« revelaram-se um modelo de negócio que encorajou a gentrificação. Era mais rentável alugar-me um quarto por alguns dias do que alojar um estudante, ou qualquer outra pessoa permanentemente. O sonho de uma segunda casa em Portugal estava em perigo de se extinguir … 

Enraizar de novo
Conduzimos ao longo de uma estrada de terra poeirenta até que de repente ficamos em frente ao portão branco enferrujado do jardim da »Casa do Bento«, a nossa casa no Alentejo. À paisagem do sul de Portugal não faltam cores, como escreve Saramago, »mas as cores não são as únicas«. Nós, ou seja, a Silke, a sua filha Clara, o meu filho Nick e eu, abrimos o portão e descobrimos uma casa escondida atrás de palmeiras,silvas de amoras e uma selva de flores de malva perfumadas. Encontramos a chave no seu lugar e entramos no mundo real dos Commoners, que até agora, eu só conhecia em teoria. A Casa do Bento é gerida e partilhada conjuntamente por um grupo de pessoas. Alguns conhecem-se, outros não. Os quartos foram rapidamente distribuídos. Fizemos compras na aldeia vizinha, e enquanto nós homens inspeccionamos a cozinha, as mulheres procuraram nas gavetas a roupa de cama. »Então como é que esta casa funciona?« pergunta Nick enquanto nos sentamos à mesa na sala de jantar. »Karl herdou esta casa da sua mãe«, diz Silke. »Há muitas memórias ligadas à casa. Vender a casa da sua mãe nunca foi uma opção, ele costumava brincar com a ideia de passar um dia aqui a sua reforma. Mas cuidar e manter uma casa como esta requer tempo e é dispendioso. Alugá-la como casa de férias não era difícil, mas não corresponde à ideia que o Karl tem para esta casa. A sua ideia foi tornar esta reliquia de familia um lugar de partilha. Foi apartir dessa ideia que tudo começou, há cinco anos atrás. Karl começou por convidar pessoas de sua relação de confiança, e cada pessoa uma vez aqui, poderia convidar outras e partilhar o espaço com o grupo.« 

»Então eu também posso juntar-me ao grupo?« pergunta Nick, surpreendido. »Claro«, digo eu sorrindo. »Se te provares digno de confiança!«

»E quanto custa?«, pergunta Clara, provavelmente já a sonhar secretamente com umas férias com os amigos. 

»Se fizeres parte do grupo e participares activamente, a estadia aqui não custa nada. Podes ficar durante dois dias ou dez, duas semanas ou um mês. É como a agricultura solidária: todos os envolvidos pagam as despesas em conjunto, deixando ao critério de cada um decidir com quanto podem e querem contribuir.«

»Realmente e como funcina isso?«pergunta Nick maravilhado. 

»Bem«, acrescenta Silke, »no início do ano Karl envia a todos os elementos do grupo uma estimativa de todos os custos baseada nas experiências dos anos anteriores. Dentro de um certo período de tempo, todos os membros podem então contribuir tanto quanto poderem e desejarem, independentemente de utilizarem efetivamente a casa nesse ano ou não. Eles simplesmente apoiam a existência do projecto. Quem e quando ao longo do ano habitará a casa é acordado por todos. Esta planificação fica depois acessível a todo o grupo. Se tiveres sorte, poderás partilhar a casa com outros simultaneamente. Podem então conhecer-se, sair juntos, cozinhar, fazer trabalhos de manutenção na casa e no jardim, ou simplesmente divagar sobre o infinito do universo, no terraço à noite.«

Ler e deixar vestígios
A casa parece abandonada e habitada ao mesmo tempo. Há vestígios dos outros membros do grupo por todo o lado, convivendo alegremente com as memórias da vida da mãe de Karl. Há um caderno no qual se pode ler ou anotar ideias sobre futuros trabalhos a realizar na casa. Encontramos notas com informações úteis em todas (!) as gavetas e portas. Numa esponja alguém escreveu »BAD«, numa tábua de madeira »alho«. »A isto chama-se ›estigmergia‹«, Silke explica. »É um princípio importante da comunicação em sistemas auto-organizacionais. Uma vez que não podemos comunicar directamente, a menos que os outros estejam aqui connosco ao mesmo tempo, deixamos ›vestígios‹ – tal como as formigas usam feromonas para assinalar às outras o caminho certo.« Durante uma deambulação pela propriedade, a vizinha que foi à sua horta buscar tomates cumprimenta-nos. Percebemos mais tarde, que isso era um convite para uma conversa importante.

Entretanto, passamos dias encantadores na Casa do Bento. Por vezes iamos até à praia, faziamos excursões ao interior e admiramos a beleza dos montados de sobreiros. Conhecemos as mulheres idosas que colhem a cortiça dos sobreiros e que nos contaram as peripécias da sua dura vida no Alentejo. Viemos de férias e tomamos conta da casa. No jardim, apanhamos amoras e cortamos a relva com uma foice. Silke fala com a vizinha por cima da vedação, inicialmente sobre os seus tomates, mas a mulher logo vira a conversa para o importante assunto: a propriedade da Casa do Bento faz fronteira com um riacho, e o proprietário é legalmente obrigado a mante-lo limpo. Isso mesmo dizia uma carta do ministério. – Numa caminhada até ao riacho verificamos que estava completamente coberto de vegetação. Entretanto, chegaram novos membros do projecto; eles foram informados do problema e juntos elaboramos um plano. O vizinho ajudou-nos a encontrar um agricultor com um tractor que pudesse transportar dali a vegetação cortada resultante da limpeza das margens do riacho. Não nos ocorre que não possa ser um problema nosso. Sentimo-nos responsáveis pela casa como se ela fosse nossa, embora – legalmente falando – isso não seja verdade.

»Como podes ter a certeza de que Karl não nos está a utilizar para arranjar a casa, para a vender depois?«, pergunta-me Nick no caminho de regresso. A resposta não era realmente difícil para mim: »Confio nele!«

Desta vez não voltarão a passar trinta anos para que eu volte a Portugal. Assumi uma parte da responsabilidade de um projecto que, em troca, me permite relançar as raízes emocionais que tenho com este país. Entre esta estadia e a próxima, encontrar-nos-emos com os outros Commoners e discutiremos o futuro do projecto da Casa do Bento, e como poderemos assegurar a médio prazo que a Casa do Bento se mantém apoiada pela comunidade e como o meu sentimento de co-proprietário, embora não o seja, pode encontrar uma forma de organização adequada. Estou curioso para ver o que estas conversas irão trazer. 

E o meu filho? Ele é agora um fervoroso entusiasta do projecto da Casa do Bento. Da sua última estadia na casa com dois amigos, enviou-nos uma fotografia com a legenda: »Nós, pintando o nosso corrimão do terraço!« Sim a Saudade é contagiosa ... mas é também comum.


Zur deutschen Fassung: »Gemeinschaffen im Paradies«

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